Folheto dadaísta distribuído em Paris em fevereiro de 1921

“O futurismo morreu. De quê? De dadá… O cubismo constroi uma catedral com purê de fígado artístico. O que faz dadá? O expressionismo envenena as sardinhas artísticas. O que faz dadá? O simultaneísmo ainda está na sua primeira comunhão artística. O que faz dadá? O futurismo pretende subir num lírico elevador artístico. O que faz dadá? O unanimismo abraço o todismo e pesca com a vara artística. O que faz Dadá?… Cinquenta francos de gorjeta a quem encontrar a maneira de nos explicar dadá… Dadá sempre existiu. A Santa Virgem foi dadaísta. Dadá nunca tem razão. Cidadãos, companheiros, senhoras e senhores, desconfiem das imitações. Os imitadores de dadá querem apresentar dadá sob uma forma artística que ele nunca teve. Cidadãos, hoje lhes é apresentado de uma forma pornográfica um espírito vulgar e barroco que não é absolutamente a idiotice pura reivindicada por dadá – mas o dogmatismo e a imbecilidade pretensiosa.

 

Cubismo

O termo Cubismo foi usado pela primeira vez para se referir às paisagens e naturezas-mortas pintadas por Braque durante o verão de 1908 em L’Estaque, refúgio favorito de Cézanne.

Viaduct of L’Estaque, Braque, 1908.

Viaduct of L’Estaque, Braque, 1908.

Nelas as formas foram drasticamente simplificadas e, principalmente nas paisagens, a ideia de profundidade e perspectiva clássicas foram negadas: construções, rochedos e árvores foram empilhados uns sobre os outros e alcançam geralmente o topo do quadro, não havendo espaços em branco. Não existe uma única fonte luminosa, e as luzes e sombras são arbitrariamente justapostas.

Como o Cubismo começou?

A introdução da estética cubista se deve ao quadro Les Demoiselles d”Avignon (1906-1907), de Pablo Picasso.

Essa obra consternou o público e outros artistas, entre eles o jovem Braque, que seria apresentado a Picasso logo após a conclusão de Les Demoiselles. Juntos, eles criaram o Cubismo.

Les_Demoiselles_d'Avignon

Les_Demoiselles_d'Avignon

Havia algum tempo que Picasso estava insatisfeito com a representação ocidental tradicional em pintura e quando pintou esse quadro, ele entrara em contato com a arte primitiva africana.

O impacto dessa arte sobre o artista se deveu principalmente a princípios conceituais: para o escultor primitivo a ideia sobre o seu tema é mais importante do que a representação naturalista, o que resulta em formas mais abstratas, estilizadas e simbólicas, como é o caso da geometrização do corpo humano praticada por artistas primitivos africanos.

Em Les Demoiselles temos um novo enfoque do problema da representação de volumes tridimensionais numa superfície bidimensional. Picasso abandona a perspectiva matemática e científica, usada desde a Renascença, e utiliza a visão “simultânea”, a fusão de várias vistas de uma figura ou objeto numa mesma imagem, algo que já era feito por Cézanne em menor grau.

Braque e Picasso foram apresentados um ao outro por Apollinaire logo depois que Picasso trabalhou em Les Demoiselles, e foi em consequência da colaboração dos dois artistas que nasceu o Cubismo

Still Life with Musical Instruments. 1908

Still Life with Musical Instruments. 1908

Segundo o próprio Braque, sua obsessão durante todo o período do Cubismo foi a representação do espaço ótico. Ele queria que, observando suas obras, o público pudesse sentir visualmente a multiplicidade de texturas e espaços. Enquanto isso, Picasso estava preocupado em transmitir a multiplicidade de informações em seus quadros.

Kees Van Dongen (1877-1968)

Nasceu na holanda e se envolveu com os fauvistas ao se mudar para Paris, em 1897. O marchand e dono de galeria Vollard se interessou muito por sua arte e foi quem organizou sua primeira exposição individual.

Van Dongen foi um dos Fauves, porém, o que mais chama a atenção em suas obras não é a sobreposição de cores, mas sim os temas representados. O principal dele é as mulheres e seu eterno desejo de chamar a atenção, seja usando um decote profundo, um chapéu chamativo ou o estilo dramático: suas mulheres parecem nos dizer que todo esforço vale a pena para chamar a atenção e destacar-se da massa.

Em suas pinturas  podemos identificar como características a influência impressionista, com as pinceladas rápidas e convulsas, dando a sensação de uma atividade frenética em ambientes apinhados de gente, com o toque especial da Soprano, lembrando uma das cantoras de cabaré de Toulouse-Lautrec.

Um elemento recorrente é o  retrato feminino. Os rostos das mulheres  são retratados como máscaras, às vezes delicadas, outras brutas, dando um ar caricatural às retratadas, mas sempre resultando em estilizações charmosas. Uma boa inspiração para a ilustração de moda.

A Ponte (Die Brücke)

Crendo ne evolução, numa nova geração de criadores e amadores, fazemos apelo a toda a juventude, e como juventude que traz o futuro em si, queremos conquistar a liberdade de agir e de viver, opondo-nos ao que é velho e confortavelmente estabelecido. Todos os que exprimem de maneira imediata e sincera o que os leva a criar, são dos nossos. – Kirchner

O fim da Brücke é chamar todos os elementos revolucionários e em fermentação. – Schimidt-Rottluff

O grupo A Ponte surgiu na Alemanha na mesma época que o grupo Fauvista.  Foi criado por quatro estudantes de arquitetura da Escola Superior Técnica de Dresda: Ernst-Ludwig Kirchner, Fritz Bleyl, Erich Heckel e Karl Schmidt-Rottluff.

Segundo Joseph Émile  Muller*, o nome escolhido tem o objetivo de demonstrar que eles desejavam que se mantivessem unidos e que outros artistas se juntassem a eles, acreditando na positividade dos contatos frequentes e no trabalho comum.

Quais são suas influências? Podemos dizer que Van Gogh, Gauguin, Toulouse-Lautrec e as estampas japonesas, parecido com o que ocorreu com os fauves. Os pintores da Brücke também tomam como referência pintores alemães do século XVI, como Dürer, Cranach e Grünewald, além das primeiras xilogravuras, inspirados pelas quais fazem gravuras em madeira. O norueguês Edvard Munch, conhecido na Alemanha desde 1892, cuja obra é caracterizada pela morbidez e pela angústia, é seu precursor direto.

A primeira exposição do grupo ocorre em 1906 no salão de uma fábrica de lâmpadas em Dresda:  recebe poucos visitantes e a imprensa não fala dela. No ano seguinte há uma nova exposição, na Galeria Richter, bastante famosa, e são notados. São acolhidos como os fauves: chocam, irritam e são insultados, mas também como eles continuam suas pesquisas e afirmam suas posições.

Durante o inverno trabalham em Dresda e no verão vão pintar nos campos, exaltando o nudismo pintando mulheres suas conhecidas. Eles querem reagir à Academia e também hostilizar a moral corrente.

Em 1911 Herwarth Walden defende o grupo em sua revista A Tempestade (Der Sturm), mas em 1913 o grupo se dissolve devido a discordâncias e cada artista passa a trabalhar sozinho.

Homem e Mulher (c. 1909), Kirchner.

Homem e Mulher (c. 1909), Kirchner.

Poster para A Ponte (1907), Kirchner.

Poster para A Ponte (1907), Kirchner.

Pablo Picasso – O Período Azul (1901-1905)

Quando eu era criança minha mãe dizia: ‘Se te fazes soldado, chegarás a general; se te fazer cura, chegarás a papa…’. Eu queria ser pintor e cheguei a Picasso.

Pablo Ruiz Picasso nasceu em Málaga em 1881, filho de um professor de arte, com quem começou ainda criança a aprender desenho e pintura. A família de Picasso era bastante pobre e a esperança de seu pai era que ele se tornasse um artista valorizado. Teve formação clássica e surpreendeu desde cedo por suas habilidades artísticas.

A fase Azul de seu trabalho se iniciou após o suicídio do amigo grande amigo Casagemas, com quem Picasso visitou Paris pela primeira vez. Nessa fase retratou principalmente a solidão, o abandono e a morte, além dos prostíbulos de Barcelona, sempre usando o azul como cor predominante.

Morte de Casagemas (1901), Pablo Picasso.

Morte de Casagemas (1901), Pablo Picasso.

Autorretrato na Fase Azul (1901), Picasso.

Autorretrato na Fase Azul (1901), Picasso.

Em 1901 Picasso havia admirado a obra de van Gogh numa retrospectiva da obra do pintor holandês, e há quem considere evidente a influência de van Gogh nesse autorretrato.

Autorretrato dedicado a Gauguin (1888), van Gogh.

Autorretrato dedicado a Gauguin (1888), van Gogh.

A Bebedora de Absinto (1901), Picasso.

A Bebedora de Absinto (1901), Picasso.

A Bebedora de Absinto (1901), Picasso.

A Bebedora de Absinto (1901), Picasso.

Pablo Picasso – O Período Rosa (1905-1906)

Morando em Montmartre, Picasso conhece Fernande Olivier em 1904, por quem se apaixona, e inicia sua fase Rosa, durante  a qual pinta muitos temas circenses, inspirados sobretudo nos saltimbancos do circo Médrano, instalado próximo ao seu ateliê, e aos poucos abandona os tons azuis para utilizar tons mais quentes.

A Família de Saltimbancos (1905), Picasso.

A Família de Saltimbancos (1905), Picasso.

O quadro A Família de Saltimbancos, também conhecido como Os Saltimbancos, é a obra-chave da fase Rosa, assim como A Morte de Casagemas é a obra-chave do período Azul.

O quadro desperta uma sensação de estranheza com seu visual surrealista: os saltimbancos parecem perdidos numa paisagem inóspita que lembra um deserto, enquanto a figura de uma mulher elegante sentada parece ter sido colocada ao acaso na composição, lembrando, por sua vez, uma miragem.

Permaneceu um período na Holanda no versão de 1905 ele ampliou as cores da sua paleta e começou a pintar nus. Além disso, permaneceu alheio ao sucesso dos fauvistas no Salão de Independentes daquele ano.  Descobriu numa retrospectiva O Banho Turco, de Ingres, e conheceu seus primeiros mecenas, além de ter vendido a maioria das telas do seu período rosa a Vollard. Era a primeira vez que ele desfrutava de boa situação financeira.

O Banho Turco (1862), Ingres.

O Banho Turco (1862), Ingres.

Acrobata Sobre Bola (1905), Picasso.

Acrobata Sobre Bola (1905), Picasso.

No decorrer de 1906 ele visitou no Louvre uma exposição de esculturas ibéricas que o impressionaram muito e fez amizades com Matisse – com quem manteria um diálogo pictórico por toda a vida – e Derain, colecionadores de máscaras e estatuetas africanas.

Exemplo de escultura ibérica: Dama de Elche (Museu Arqueológico Nacional de Espanha, Madrid).

Exemplo de escultura ibérica: Dama de Elche (Museu Arqueológico Nacional de Espanha, Madrid).

Pablo Picasso – O Cubismo e Braque (1907-1916)

Em 1907, mesmo ano em que foi realizada uma retrospectiva de Cézanne, Picasso pintou Les demoiselles d’Avignon, obra que anunciou o Cubismo e que foi rejeitada por quase todo mundo, ficando guardada até 1916, quando André Salmon, escritor e crítico de arte, deu nome à tela . Nesse ano, por intermédio de Apollinaire, conheceu Georges Braque, que também admirava Cézanne e que naquele verão estava aplicando fórmulas geométricas às suas pinturas. Com ele Picasso estabeleceu uma sólida parceria.

A Primeira Guerra marca a separação de Picasso e Braque, que foi convocado para a Guerra.

Sketch para Les Demoiselles d'Avignon (1907), Picasso.

Sketch para Les Demoiselles d'Avignon (1907), Picasso.

Les Demoiselles d'Avignon (1907), Picasso.

Les Demoiselles d'Avignon (1907), Picasso.

Les demoiselles d’Avignon é definido como o quadro que revolucionou a história da arte. Seu geometrismo e suas deformações inauguraram o cubismo e, por extensão, a pintura moderna.

Nessa época Picasso também visitou as coleções de arte africana do Museu de Etnografia de Trocadero, em Paris, e fez talhas imitando as formas primitivas.

As banhistas (1900-1905), Cézanne.

As banhistas (1900-1905), Cézanne.

As famosas telas retratando banhistas de Cézanne também influenciaram Picasso.

Fauves: A Dispersão

A partir de 1908 os artistas Fauves se dispersam, e alguns chegam a negar sua participação no movimento, modificando radicalmente seu estilo.

Eles começam, então, a observar atenciosamente Cézanne, sobretudo a partir de uma retrospectiva do artista realizada no Salão de Outono de 1907, apresentando 50 de suas obras. Na mesma época foram publicadas cartas suas a Émila Bernard, tornando pública sua estética e chamando atenção para esta sua frase que logo se tornou célebre:

Permita-me repetir-lhe o que lhe dizia aqui: tratar a natureza pelo cilindro, a esfera e o cone, pondo o todo em perspectiva. – Cézanne

As declarações de alguns dos fauves explicam um pouco a mudança que os levaram a seguir caminhos muito diferentes após abandonar o grupo:

Não seria possível ficar sempre no paroxismo. – Braque

O jogo de cores puras, orquestração excessiva em que me tinha lançado às cegas, já não me contentava. Sofria por não poder ferir mais, por ter chegado ao máximo de intensidade, limitado como ficava pelo azul ou o vermelho do vendedor de cores. – Vlaminck

Fauves – Georges Braque

O homem que criou o Cubismo junto com Picasso também teve sua fase Fauve.

Ela foi curta, representada por cerca de 20 quadros, e foi iniciada quando ele foi a Paris em 1900 para trabalhar como pintor na construção civil.

Estuda em escolas de arte e se interessa pelo Fauvismo ao ver as telas pintadas em Collioure por Matisse e Derain, expostas no Salão de Outono de 1905. Nessa fase sua obra é  marcada pela mistura de pincel e espátula, a segunda sendo usada principalmente para representar a fluidez do céu e das águas.

O Porto de Antuérpia (1906), Braque.

O Porto de Antuérpia (1906), Braque.

O quadro O Porto de Antuérpia foi pintado quando Braque, já envolvido pelo Fauvismo, acompanhou o pintor Fauve Émile-Othon Friesz à Antuérpia (cidade belga) e se deixou influenciar por seu estilo.

La Ciotat (1907), Braque.

La Ciotat (1907), Braque.

La Calanque, temps gris (1907), Braque.

La Calanque, temps gris (1907), Braque.

Fauves – Maurice Vlaminck

Vlaminck (1876-1958) é considerado o mais violento e selvagem dos Fauves.

Enquanto Matisse afrma “É preciso contrariar o instinto, ele é como uma árvore a que se cortam os ramos para que cresça mais bela.”, Vlaminck exclamava: “É preciso mais coragem para obedecer aos nossos instintos do que para morrer como herói no campo de batalha.”

Seus trabalhos geralmente não eram datados, por isso é impossível precisar quando foram pintados, mas o que se pode verificar é que seu trabalho pouco mudou durante toda a fase Fauve.

Ele foi mais um artista influenciado por Van Gogh, e chegou a declarar: “Nesse dia (referindo-se à sua visita à  galeria Gleria Bernheim-June) gostei mais de Van Gogh que de meu pai.

Ao invés de usar cores aleatórias como fazia Matisse, ele costumava usar as cores naturais, porém exacerbadas.

Ele não se preocupava muito com o desenho dos contornos; para ele o importante era a pintura em si, e suas pinceladas poderiam ser verticais, horizontais, diagonais ou onduladas, em função da sensação que desejava transmitir.

Casa em Chatou (c. 1905), Vlaminck

Casa em Chatou (c. 1905), Vlaminck

La Seine à Chatou (?), Vlaminck

La Seine à Chatou (?), Vlaminck