
A Professora de Piano, do diretor Michael Haneke, ficou bastante conhecido quando foi lançado no Brasil, em 2001.
Só agora eu o assisti, e ao contrário de quando fui ao cinema ver A Fita Branca, durante o qual ficou muito claro que Haneke exerce magistralmente seu ofício de dirigir atores, nada sabia sobre o filme, a não ser que “era perturbador”, como muita gente afirmara e como normalmente se ouve a respeito dos trabalhos do diretor.
O filme conta a história de uma professora de piano, Erika, especialista em Schubert, que aos 40 anos ainda mora com sua velha mãe, com quem leva uma relação claustrofóbica e violenta recheada de agressões físicas diárias, num antigo apartamento. Além de praticar atos autodestrutivos e enveredar pelos caminhos obscuros da pornografia e do sadomasoquismo pesado, ela tortura os alunos psicologicamente durante as aulas.
Apesar da, ou talvez devido a sua personalidade controversa e nada amigável, desperta a paixão de um candidato a aluno, Walter, bem mais novo que a persegue, e passo a passo adentra o estranho mundo do seu objeto de desejo.
A partir da leitura de uma carta na qual Erika faz suas exigências sexuais para aceitar Walter como amante com as quais ele não concorda, as perturbações psicológicas da pianista se acentuam cada vez mais, gerando situações insólitas, tornando o relacionamento entre os dois cada vez mais truncado.
Haneke não parece fazer questão alguma de fechar a história, o que me agradou muito. Na sequência final, após ser mais uma vez fisicamente repelido pela mulher, ao mesmo tempo em que ela diz amá-lo, Walter invade sua casa e se transforma no personagem que ela exigira que fosse na carta rejeitada.
Após o tenebroso acontecimento passado na entrada do apartamento dela, eles se reencontram na entrada de um recital no dia seguinte, o que parece resultar na partida, simbólica ou física, impossível para mim afirmar com certeza, da então obviamente desequilibrada mulher. Considero que os últimos 20 minutos do filme abrem um grande leque de interpretações, sem perder seu impacto.
Diante dos protestos de um ouvinte a quem relatei a história, por dizer que (somente) nos últimos 20 minutos de filme a história fica realmente estranha, me dei conta de que isso ocorreu porque a revelação e o mergulho no estranho mundo de Erika foi gradual e em muitos momentos sutil. Me dei conta de que já vi situações assim acontecerem antes: pouco a pouco, a realidade se torna tão insólita que nada mais parece impossível ou inesperado.
Com a página inicial que mostra o escritório em tempo real (aparentemente):
Peça do designer Stefan Sagmeister para a Levi’s: